26 de mai. de 2011

Cap 22: O esconderijo das borboletas

Sentada no ônibus, nestes sempre estafantes retornos a casa, ela olhava pela janela o passar acelerado das manchas de árvores, postes, prédios, luzes. Não muito concentrada no lá fora, nem em si mesma, apenas flutuando no pensamento vazio, deparou-se de repente com aquele jovem. Ajeitou-se na poltrona e o olhou novamente parado no ponto de ônibus. Para sua surpresa, ele entrou e da roleta começou a procurar em algum lugar dos bolsos o bendito vale transporte.

O coração descompassou quando uma porta escancarou-se dentro dela. Como podia ser tão parecido, inacreditavelmente semelhante...? Tentou desviar, mas o olho cravou-se no rapaz e, alheia a sua vontade, sua visão fixou-se na cena adormecida. Tanto tempo se passara, mas aquele seu antigo amor estava bem ali de novo na sua mente, um trabalho absurdo para esquecê-lo e simplesmente lá estava ele naquela imagem do jovem desconhecido.

Levou as mãos ao rosto, fechou os olhos, mas não a porta. Porta antiga agora escancarada, de onde saíram, não morcegos como nos filmes, mas borboletas que agora brincavam libertas em sua mente, fazendo a memória dançar no ar.
O rapaz sentou-se no banco da fileira ao lado, de frente para ela, e começou a conversar com seu amigo que estava logo atrás. E sua figura multiplicou-se por todos os vidros. Olhando para o vidro da sua janela ela via nitidamente aquela imagem física que lhe despertava a imagem poética.

A angústia lhe trouxe um incomodo de tão insuportável que acabou fazendo sinal para descer um ponto antes e somente se dera conta disso quando já na rua respirou um ar mais leve e viu-se uma quadra antes de casa.

Caminhante pelas ruas sem cadeiras no portão por causa do inverno que recolhe, ela permitiu-se lembrar dele depois de tanto anos achando que já o trancara dentro de si. Sorriu e balançou a cabeça para os lados mais aliviada até. Bons tempos de aventura, pena não ter sido possível... Mas ficara eterno.

Com o passar dos dias as borboletas retornariam uma a uma para o esconderijo, lembranças que voltam a descansar e a porta se fecha outra vez.

Nossos pavimentos do inconsciente são mal assombrados, à noite, por nossa casa-eu transitam pelos corredores os habitantes das portas que de dia acreditamos trancadas.

Em cada tristeza de uma perda empurramos as pessoas para quartos escuros e, quando dormimos, elas se vestem com roupas e perucas para não reconhecermos que nos desobedeceram e saíram de onde a tivemos colocado. E nos indagamos inquietos de manhã sobre nossos sonhos desbaratinados: fulano que estava num lugar, mas não era bem ele, era outro...

Quando não somos capazes de conviver com nossos insaciáveis desejos proibidos, nem mesmo queremos lembrar de que um dia o tivemos, eles começam a habitar a escuridão dos nossos sonhos e a repetir neles o que não teríamos coragem em lucidez. Ficam passeando pelos corredores da memória à espera sofrida de que não o tranquemos novamente quando chegar a hora de acordar.

Não queremos de modo algum lembrar daqueles que nos feriram e nos traíram, ou partiram nos deixando, mas enquanto não os perdoarmos, enquanto não assumimos a imagem deles, estaremos infinitamente acorrentados à rotina perversa de virar a chave da porta.

Aceitarmos também os que nos feriram é nos libertarmos de muitos de nossos pesadelos, porque para voltarmos a sermos felizes é preciso abrir portas.

E, de repente, acontece isso, um cabelo, um jeito não sei como de jogar a cabeça para trás, um fio que escorre pela testa e nos lembramos dos gritos noturnos dos que imploram para sair, ouvimos o lamento dos que esmurram alguma porta no pavilhão da memória.

Quando nos desligamos deles, ficam assim apenas lugares por onde o sol entra durante o dia, as borboletas visitam e se escondem, livres para sair. A cada retorno ao passado elas deslizam pelo ar da recordação e brincalhonas nos fazem rir de novo a cada reconhecimento de rostos, vozes alegres, cheiros doces, toques antigos. Depois elas retornam ao seu esconderijo e aquietam-se.

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