26 de mai de 2011

Cap 1: Genealogia do Amor

A mulher se reconhece como tal quando já na infância sente que lhe falta o pênis. Assim Freud definiu o início da percepção sexual feminina. Essa é a visão que por muito tempo os homens que escreveram a história registraram a respeito da construção do feminino. A mulher ficou, assim, concebida como aquela que tem em si a necessidade do preenchimento. Essa concepção inconsciente irá desaguar nos relacionamentos com mútuos acordos de opressão.

Em um quadro geral, os corpos dos homens são brutos, rígidos, protuberantes, secos. Enquanto o das mulheres são curvas, úmidas, delicados. A fisiologia deixa isso claro: o pênis se projeta, enquanto a vagina é interior, escondida. O ideal da força faz alguns homens sentirem que podem sustentar o mundo girando em cima de seus membros rígidos, como fazem os jogadores de basquete com a bola rodopiando sobre o dedo.

O que tudo isso tem a ver com o amor, a que se pretende o livro falar?

Bom, antes de existir a concepção romântica do amor que conhecemos hoje, houve uma época em que as mulheres eram vistas como meras reprodutoras. Milênios de muita ciência e tecnologia avançaram até nós e ainda assim são elas tidas por certos homens machistas como as portadoras da fraqueza dos sentimentos. “Mulher é toda sentimental”, “Mulher chora por tudo”, “Mulher é sensível”.

Mais algumas décadas se transcorrem trazendo uma alteração desse paradigma, já que cada vez mais os homens passaram a admitir que não é falta de masculinidade demonstrar o que sentem.

Se por um lado o século XXI traz à luz a oportunidade do diálogo e a quebra de tabus, por outro, se instaura um “Amor líquido”, como denominou o sociólogo polonês ZYGMUNT BAUMAN. Os laços afetivos se tornaram extremamente frágeis.

Os amigos contam uns para os outros na mesa de bar com quantas “ficaram”, quem “pegou”. O importante não é levantar falsos moralismos. A mudança do vocabulário é a parte superficial do iceberg. Afinal, “flertar”, na época dos nossos pais, é a palavra brega correspondente para “ficar”_ resguardando as proporções sobre o que era permitido dentro do “flerte”.

O objetivo deste livro é avaliar os relacionamentos amorosos humanos e o amor, que nunca é sem intenções, mas com várias, segundas, terceiras, quartas, cem intenções de obter companhia, felicidade e união.

Cap 2: Um amor entre os primeiros espinhos

É incoerente como atualmente as pessoas prezam a falta de compromisso e paradoxalmente estimulam as crianças na tenra infância a demonstrarem ligações afetivas. A própria mãe ri entre as amigas dizendo que o filho tem já uma “namoradinha”, mesmo que essa seja uma construção apenas da sua cabeça. E ela ainda irá se surpreender, quando o vir transar na sua cama, naquele fim de semana que decidiu viajar e voltar mais cedo para casa.

Complexo ver como, em meio a diversas expectativas exteriores, os adolescentes buscam o primeiro amor. Digo buscam, porque há uma sede em viver aqueles romances de cinema em que no espaço de 3 horas o drama se resolve e os personagens terminam rindo e se beijando no melhor desfecho happy end. Mal podem esperar por escreverem suas próprias histórias de amor, que já começa carregada de cem expectativas e intenções.

É desesperador, quando nos damos conta de que tudo pode dar errado, fora dos nossos scripts. O beijo fica molhado demais, o dente bate e a borrachinha do aparelho solta. Onde está o orgasmo na primeira relação?, se pergunta a menina, em meio a dor da perda do hímen? Nos filmes não é assim, tudo parecia bem mais fácil... Por que de repente, depois de passar por essas fortes emoções ela não vê uma mudança tão substancial assim no seu corpo como imaginava?

Por isso, porque ela só imaginava. O primeiro amor nasce esbarrando nos espinhos. Ele brota do mundo irreal e cheio de fantasias de nosso inconsciente e terrivelmente não se concretiza saciando todos nossos desejos primitivos. Não se sabe bem o que se busca a final no outro, o que se tem é muita vontade de experimentar tudo que é novo. E isso delega uma vital pré disposição ao erro, a dor e ao arrependimento. Mas para a maioria dos jovens vale o preço disso tudo para se destacar na frente dos amigos como a “garota” ou “garoto” vivido e resolvido no grupo. É interessante perceber como se “destacar” na realidade é uma tentativa de anular a diferença e não destoar pela ausência de experiência. Os que ficam por último sentem o peso e o desespero de se livrar logo da falta do primeiro beijo, da primeira transa, da primeira matinê.

Estranho ter tudo na mão desde de que nascemos, possuir dois pais narrando a nossa vida, segundo o desejo deles, e estarmos sozinhos na escolha de alguém para amar, logo se possível, a primeira vez.

A primeira perda é igualmente dura, quanto suportável. A luz dos anos iluminará nosso passado e nos mostrará o quanto fomos desajeitados nos passos iniciais dos relacionamentos amorosos. Há, claro, os casamentos de bodas de carvalho, que começaram no primeiro beijo e que renderam uma dúzia de netos gordinhos e sadios. Porém, de modo geral, é muito mais difícil, hoje, construir este amor sólido, quando o mundo prevê cada vez mais a individualização. Todos podem fazer tudo sozinhos. Ser de todo mundo e não ser de ninguém.

Pode parecer que foi inútil e muito chato ter ouvido falar de fordismo e modernismo lá na sua aula de história do segundo grau. Mas veja como a economia reflete no modo de socialização. Quando a indústria baseava seu modo de produção no fordismo, ou seja, os trabalhadores ficavam em pontos fixos das fábricas realizando uma única etapa da produção de um bem, havia um espaço de trabalho e um espaço de lazer, fora da fábrica nitidamente separados. Após a Segunda Guerra, o mundo expandiu a tecnologia para todos os cantos e agora o consumo de massa passou a dar lugar ao consumo por encomenda, personificado. Começa aí o taylorismo. Um modo de produção em que o indivíduo trabalha dentro da fábrica e fora dela, a partir do momento em que carrega com seu celular e computador ligado a rede a possibilidade de a todo momento estar ligado ao seu chefe.

Enquanto a economia mudou, o homem moderno dotado de todas as certezas, passou a se ver perdido no mundo das possibilidades. A cada dia aquela doença invencível ganhou sua vacina, as fórmulas matemáticas que não encontravam coerência na área de figuras geométricas irregulares cederam espaço para a lógica dos chips de computador. Resumindo: Ninguém pode ter mais certeza de nada, até que se prove o contrário. Chamamos esse homem sem segurança, imerso em um mar de possibilidades, de sujeito pós-moderno.

Agora sim podemos voltar a assunto "amor". O sujeito pós-moderno tem ao seu favor vários mundos prontos para se acoplar em sua vida no modelo chave fechadura. Quer morar sozinho? Não se preocupe, nós fazemos para você embalagens pequenas e individuais para todos os produtos e assim você gastará menos! Quer largar seus pais e sua esposa? Divida um apartamento com um amigo ou um estranho, isso é normal, é “in”.

Já imaginou lá no século retrasado uma mulher que casava aos quatorze anos com um barrigudo que poderia ser seu avó dizendo para sua mãe “vou alugar um conjugado perto da faculdade e dividir com alguém”? Seria de arrepiar o cabelinho da nuca.

Por isso, fica mais fácil compreender agora como atualmente não é tão simples assim sustentar uma relação, uma vez que o mundo não condena moralmente da mesma forma atos que, passe o tempo que for, ainda irão ferir o nosso coração, como a traição, por exemplo.

Cap 3: Com quantos amores se faz uma vida?

Eu por muito tempo carreguei uma seguinte concepção: “Amor é um só”. Grande, forte, eterno e insubstituível. Até que um dia, arrasada totalmente por me dar conta de que o dito tal Amor único não deu em nada, veio uma amiga em meu socorro me fazer a mais bestas das perguntas, diante da minha crise existencial:

_O que você mais gosta de comer quando sai?
_Ãnh?
_Isso mesmo! O que você gosta de comer?
_Sei lá... Pizza.
_Mas você também gosta de bata frita e bolo de chocolate?

Onde é que ela estava querendo chegar com amor e bolo de chocolate? _ pensei, mas visto que era psicóloga, aquilo tudo deveria desaguar em uma boa explicação.

_Gosto, claro! _ ri.
_ Então, por você gostar de pizza não significa que você não vai gostar de batata frita. São todas comidas, com nomes diferentes. Da mesma maneira, não existe um único amor, existe maneiras diferentes de se amar, pois cada pessoa com quem você vai estar te fará feliz de uma maneira.

Interessante. Comecei a refletir que não podemos fechar nossos caminhos para possibilidades por causa de idéias naturalizadas como certas. Se aquele primeiro amor, apertado entre os espinhos, não vingou, é fraqueza achar que nada poderá dar certo outra vez. Como se criássemos uma redoma de vidro e ficássemos ali protegidos das novas chances de ser feliz.

Parece loucura que quando nos dispomos a novamente apreciar outra pessoa, automaticamente sentimos que estamos traindo aquele amor que colocamos como insubstituível dentro de nós. A questão é que não estamos colocando um outrem no lugar do primeiro, afinal, cada um tem sua singularidade. Mas é fato, o melhor remédio para esquecer um amor que te fez sofrer é amar outra vez.

Não podemos, porém, passar a vida de galho em galho. Que horas, então, parar? Chegar a conclusão de que esse é o amor para juntar escovas de dente? Infelizmente quando isso acontece não soa nenhum alarme e começam a piscar um monte de luzes vermelhas. A vovó vai te dizer: “Querida, você vai sentir”. Muito abstrato, você me dirá. Bom, então, seria interessante que começasse a fazer algumas perguntinhas para si mesma.

Ele vai estar ao meu lado me desejando, quando eu engordar e ficar com o peito no umbigo? (Considerando o pior). Eu consigo passar horas conversando com ele? (Não é de sexo que você vai viver!) Eu amo ele de verdade, ou só admiro o poder, o físico, a capacidade de oratória, ou algum ponto específico nele? Eu conheço como ele é dentro de casa, na intimidade? Ele é maduro o suficiente para viver sozinho e cuidar de mim se eu precisar?

Não vou te dar agora a pontuação para quantas respostas “sim” e quantas “não”, como nas revistas de adolescentes, já que a vida é uma surpresa. As combinações mais insólitas podem durar para sempre, enquanto alguns casais perfeitos não ficam muito tempo. O mais importante é começar a refletir no lado prático da vida, pois estar com alguém com quem você não tenha a menor perspectiva futura pode fazer crescer uma raiz dolorosa de se extrair quando o fim vier à tona.

Na faculdade de jornalismo, confesso que filosofia era uma aula que me trazia uma verdadeira tempestade mental. Vários raiozinhos tostando meus neurônios. Mas em uma dada aula o professor falou o seguinte: “Segundo esse filósofo as escolhas devem ser feitas com a certeza de que será a melhor. Mesmo que não seja. Pois se a escolha já for feita sabendo que vai dar errado, ela não levará ao melhor dos mundos.” Descontando a tradução da remota lembrança, aquilo ficou fixo na minha mente. Escolher levar um relacionamento com alguém que no fundo já sabemos que não dará certo, só aumentará dia após dia a dor do rompimento.

Com quantos amores se faz uma vida? Não há um cálculo preciso, mas sem amor a vida vale bem menos a pena.

Cap 4: Em busca de um novo amor

Isso é uma aliança? Isso é um caixão? Isso é um enterro de uma aliança? Pode acreditar, depois de Jill Testa ter se divorciado amigavelmente do marido após 20 anos de união, resolveu criar um site para vender caixão para alianças (http://www.weddingringcoffin.com/) . Assim você pode agora enterrar seu casamento simbolicamente, explica a mulher que mora em Manhattan, EUA.

Simbolismo é a base da cultura humana. Não que você precise enterrar a caixa com as coisas que guardou do seu ex-namorado no quintal da sua casa. Apesar de agora me ocorrer um conselho que ganhei certa vez de uma mulher estudiosa da cabala: “Querida, queima tudo, põe fogo, porque assim não fica nenhuma energia empatando seu caminho”. A idéia é boa, mas não sei se pegaria bem eu fazendo uma fogueira com bichinhos de pelúcia, os vizinhos certamente iriam pensar: “Alá, tão nova e bruxa!”. Só não posso negar, que é uma prática minha não ter perto de mim objetos que me recordem fases da minha vida que já receberam um ponto final e definitivo.

O que não se pode é se afundar junto com o amor e achar que nunca mais ninguém vem para te fazer ficar rindo de tudo feito um bobo (a) apaixonado (a) outra vez. Demora (ou não), mas acaba chegando uma pessoa que te traz novamente o vigor e a vontade de fazer planos juntos. Os fantasmas do passado sempre rondam, vire e mexe, esbarram conosco no próximo sinal, no descer de uma escada... Mas agora são só isso: fantasmas.

Ficamos um bom tempo unidos por um laço muito forte com nossos parceiros que, ao romper com eles, parece que ainda estamos atados a estes, mesmo distantes. Por isso, o melhor que temos a fazer é nos libertarmos das correntes e deixá-los ir embora lá dentro de nossas cabeças. Sua mente tem um forte poder de transformar sua realidade. Quer um exercício? Procure um lugar muito tranqüilo, deite, relaxe completamente. Imagine uma rua comprida, que termine em uma esquina. Você e essa pessoa que não consegue tirar da cabeça caminharão de mãos dadas até o fim da rua. Diga a ela por que ela precisa te deixar, por que será melhor para você. Converse com ela e ao chegar à esquina deixe-a partir. Veja-a ir embora e sinta a sensação do momento. Pode ser uma experiência que te emocione, mas certamente lhe trará uma boa paz. Essa técnica me foi ensinada por uma amiga espírita.

O pior, eu acho, quando uma pessoa não fica com a gente é continuar amando a imagem cristalizada dela em nosso passado. Ela certamente se modificará para melhor, ou, por que não reconhecer isso, para pior também. Sendo que aquela primeira que guardamos na memória é que ainda nos encanta. Amamos os quadros que penduramos no nosso coração. É preciso força para romper com essas imagens. E se permitir viver um novo amor.

Cap 5: A lente do amor

Amar é buscar uma flor à beira do precipício. Todo amor tem o seu preço, nenhum nos vem sem custos. Algumas pessoas são forte o suficiente para carregá-los no peito, outros são mais fortes ainda, pois permitem que ele se faça real. É preciso desprender-se de muita coisa para aceitar o amor, sempre incongruente com nossas expectativas. Nos pegamos gostando de sorvete de manga, de café, de acordar cedo para caminhar, o amor nos muda. Não são poucas as vezes que nos surpreendemos realizando coisas que antes negávamos ou rejeitávamos. Quem vive de amor vive melhor, sabe olhar para o chão e ver também as formigas. Porque o amor tem essa capacidade de nos fazer ver ainda mais o mundo, em detalhes, com um foco preciso.

Grandes amores se perdem no tempo pela fraqueza de pessoas que não os mereceram. Medo do que os outros vão pensar, orgulho de voltar atrás, falta de coragem para arriscar, são tantos os motivos que levam algumas pessoas a deixar o amor ser apenas pensamento. É triste perceber que nem todos foram dignos dos sacrifícios de outrem. Amor sozinho não faz felicidade, vive em estado de latência permanente.

Gosto particularmente do que confessa Jorge Luis Borges:

“Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas. Se voltasse a viver, viajaria mais leve. Se eu pudesse voltar a viver correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Se não o sabem, disso é feita a vida, só de momentos. Não percam o agora. Mas já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo”.

Admiro aqueles que levam a vida menos a sério, gostaria de ter um pouco mais desse dom. Agora, por exemplo, faz uns tímidos raios de sol à minha janela. A chuva me acordou antes que o despertador se arrebentando contra o vidro. Pensei nas três semanas anteriores em que fui a aula e o professor faltara. Dessa vez era a minha vez de ser irresponsável. Não fui. Isso não é nada bonito! É errado. Mas por que a vida tem que ser correta, se eu preciso um pouco mais do meu edredom? Foi assim que vim para cá, diante do computador, acompanhada da minha xícara de café. Escrever me dá muito mais prazer que tudo que há na minha agenda. Aliás, o que há na agenda a gente escreve para não esquecer, pois tudo que guardamos no coração não se esquece.

No amor, nem sempre fazer o certo é ser feliz. Estar com aquela pessoa que todos consideram ideal e não cometer a loucura de correr atrás daquela que verdadeiramente amamos é um risco de chegar aos 85 e perceber que não dá mais tempo. Já se foi a vida.
Há quem sinta que amanhã sempre estará em tempo. Mas daqui a pouco, quem sabe, um outro pode tomar o coração de alguém a quem se ama. O amor primeiro pode continuar lá, guardado no baú, mas dessa vez este novo amor pode valer bem mais a pena.

Tenho pena dos fracos que não arriscaram, pois eles nunca provarão dos beijos apaixonados, dos carinhos na nuca, das noites de amor, das cartas, dos cafés da manhã a dois. Eles estarão seguros, mas do que vale a segurança, quando não se está com o grande amor de sua vida?

Cap 6: Entre o amor e a profissão ou com os dois

Antes mesmo de sonharmos com a felicidade a dois, visionamos a realização pessoal que está muito intimamente ligada com a satisfação profissional. Quando encontramos nosso par, porém, podemos descobrir a incompatibilidade profissional. Uma bem sucedida executiva, por exemplo, diante das transferências de trabalho constate do marido pode ver sua carreira arruinada. Uma artista que viaja constantemente e não tem tempo de cuidar dos filhos pode levar o marido a se desapontar com a imagem de ideal de mãe que tinha. São inúmeras as situações em que as escolhas de um interferem nos planos do outro. Como também não são poucas as alternativas possíveis para fazer o ajuste que leve ao equilíbrio desejado.

Se a mulher do século XX temia uma separação e se subordinava ao marido, a situação de hoje se reverteu completamente. Cada vez mais as pessoas relutam em ceder em prol de um empurrão para o sucesso do parceiro em detrimento do seu êxito. Egoísmo, julgariam alguns. Nem sempre. A atitude de pensar em si mesmo ficou diabolizada, mas será que refletir bem se vale a pena largar todos os esforços do passado é um ato vil e egoísta? Acho que não. Em alguns casos, abandonar os sonhos de carreira pode significar no futuro um grande recalque e remorso. O que também não quer dizer que alguém possa ser feliz dando um outro rumo ao seu destino a fim de pensar na melhor alternativa para a família.

É neste momento de grande decisão que aparecerão dezenas de pessoas para contarem para você o exemplo daquela tia, da sogra da vizinha, da fulaninha e por aí vai, só piorando seu processo de escolha. Pense que a sua história é única. Marx disse que:

“Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem, não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado".

Cada pessoa tem um histórico de vida e é ele que vai determinar como você irá encarar qualquer mudança no curso do seu destino. O que para uns pode levar a infelicidade, para outros é o primeiro passo para a melhor das decisões.

O poetas falam do amor e os economistas da realidade. Pensar em amor e deixar totalmente de fora o fator dinheiro é um tanto infantil. Não me refiro a “casar-se por interesse”. Quero chegar a um ponto... de interrogação: Qual o melhor momento de casar?

Alguns relacionamentos terminam, quando poderia ser apenas o começo. Casar sem maturidade psicológica para se assumir e muito menos sem dinheiro é atravessar uma ponte perto de ruir. A todo momento ela balança e parece que vai cair. Não é a toa que cada vez mais os adultos estão prolongando a vida na casa dos pais.

Para saber como está a sua situação, proponho que faça uma coisa prática, que aprendi em uma aula na faculdade chamada “Planejamento de vida profissional”. Faça uma tabela com tudo que teria que gastar no mês. Tudo mesmo, não pode esquecer detalhes mínimos: depilação, estacionamento no shopping, lanche no fim de semana, celular, roupa, presentes de aniversário e etc. Coloque todas as contas. No fim, some tudo. Agora monte uma outra tabela com sua carreira. Dessa vez separando por semestres e anos. Em cada semestre como estaria o andamento dos seus estudos? Faça tudo dentro de uma perspectiva de 10 anos. Não esqueça de incluir na sua carreira os estágios e empregos com seus respectivos pagamentos.

Agora, tome a primeira tabela como base e veja quando você poderia viver sozinha. Em que período se encaixaria esse gasto mensal? A partir daí, você já pode pensar em casar.

A grande maioria vai pensar que é radicalismo. Mas tem um detalhe: quando tudo der errado (e sempre pode dar!), você pretende voltar para casa dos seus pais, ou tocar sua vida independentemente? Hum! Eis a diferença. A mulher deve partir para uma convivência sob o mesmo teto no momento que tem uma relativa segurança sobre si e seu dinheiro. “Ah! Então, se for assim ninguém casa!”, me diriam uns. Realmente isso diminuiria drasticamente o número de bodas. Também reduziria o número de mulheres com um filho nos braços, na casa dos pais, ficando para trás naquele seu sonho de adolescente de ser bem sucedida. Os sonhos sem estrutura são uma bolha de sabão frágil até à uma particula de poeira.

Atualmente os pais se preocupam em fazer os filhos passarem no vestibular para as melhores faculdades, mas não os preparam para a vida. A vida prática, real. Há mulheres que não sabem fritar um ovo, que não lavam roupa na mão, que nem tem prática de passar roupa, que mal viram uma escova de vaso, porque nunca tiveram costume de lavar o banheiro. “Mas para isso existem as empregadas!”, já até sei que vai argumentar isso. Claro, mas naquele seu orçamento das tabelas acima, onde vai poder entrar uma empregada consumindo no mínimo 500 reais do seu salário? “Não seja por isso, pago uma faxineira”, você me rebate rapidamente. Ok, vamos calcular, então: uma faxineira vai, assim, 4 vezes por mês a sua casa e cobra com isso duzentos reais. Esse dinheiro equivale a quantas contas do seu planejamento? Olhe a tabela. Certo, ela é fundamental para você? Inclua assim a faxineira no sua tabela. E os outros seis dias da semana em que ela não estará lá? Como você vai se virar?

“Os homens são modernos, não exigem mais que as mulheres saibam fazer nenhuma atividade doméstica”, canso de ouvir isso. Só não se esqueçam que esses homens tiveram a mesma criação que vocês e sabem menos ainda como é dirigir um lar, pois suas mamães deixavam tudo prontinho para estes. Não se engane, lá no fundinho ele olha para você como sua segunda mãe. Sentiu um frio na espinha? Não se preocupe, a maioria das mulheres não se atentam para este fato real, quando estão fixionadas com o vestido, com o bolo da festa.

Festa de casamento é linda, mas só dura um dia e seu casamento anos (?). Por isso, voltando ao tema das profissões, é importantíssimo que a união esteja dentro de uma perspectiva sólida de vida para ambos. Pequenos atritos bobos do cotidiano desgastam totalmente o relacionamento. A falta de dinheiro quebra um pouco o encanto da união, fadada a viver sobre privações. Pense bem, pois o primeiro passo na hora errada pode te custar uma desilusão.
O casamento pode ser o clímax de um lindo amor, mas para isso é vital arrumar a casa em que ele vai ser guardado e cuidado antes de qualquer coisa.

Cap 7: A privacidade dentro dos relacionamentos

Por algum motivo ele precisou dar a senha da sua conta de e-mail para sua namorada checar um dado para ele e esqueceu de trocar a senha. Como a curiosidade é um bichinho que corrói, ela acaba aproveitando para verificar a caixa de e-mails recebidos e enviados e não se agrada com o que vê. Neste momento surge o impasse: conta ou não para o namorado que fuxicou sua correspondência? Se não contar, como poderá discutir a situação? Já dizia a vovó, que o que o que os olhos não vêem o coração não sente. Mas se cegar também não é a solução a que proponho.

Privacidade é assim um tema controverso. Cada casal propõe o seu modelo. Uns delimitam o seu espaço do tamanho de um campo de futebol, outros não chegam nem ao de uma mesinha de totó. A sensação de segurança de que o outro não está fazendo algo considerado errado dentro da relação não está na mesma proporção do tamanho da privacidade imposta. Porém: “Quem tem muito a esconder, teme o que pode revelar”.

Mulheres neuróticas, que vasculham tudo como se procurassem em qualquer papel a prova de um crime, não são pouco raras. Você pode até sentir-se aliviada por não se considerar parte das estatísticas, mas não pense que cair na paranóia pode estar longe do seu caso. Basta um deslize para que nunca mais a paz esteja inabalável. A mulher freqüentemente desconfiada acha que seu parceiro não tem mais o direito de ter sua privacidade.

Não posso afirmar categoricamente que a opção de alguns casais de considerarem tudo na vida de ambos de conhecimento dos dois (inclusive senhas de e-mails, de msn e etc) seja um erro, afinal, o amor não é uma fórmula, cada um constrói o seu universo de relacionamento com as perspectivas de ser feliz.

Depois de um período de perseguição investigativa, o homem ou a mulher começam a reclamar que estão se sentindo sufocados e caem na precipitação de culpar o amor, julgando que ele acabou e que só resta o ciúme doentio. Nem sempre estarão eles próximos do fim, o que falta é o respeito pela chance do outro de fazer coisas apenas dele ou dela, sem que exista um olho de “Big Brother” para supervisionar tudo.

Uma família de porcos espinhos resolveu se aquecer do inverno ficando todos abraçadinhos. Por estarem muito perto, acabaram se ferindo com os próprios espinhos. Ao se afastarem demais, sofreram do frio intenso. Descobriram, assim, que o melhor método é estar perto, mas respeitar a zona de limite. Essa historinha de criança sempre vem à tona, quando penso a privacidade dentro do relacionamento. Sem esta linha limite, o outro pode sentir-se invadido dentro da sua área de decisões e escolhas.

Então, a melhor atitude é deixar o parceiro fazer o que quiser e nunca verificar nada? Claro que não! Se tem uma luzinha vermelha que não pode parar de piscar dentro de você é o “desconfiometro”. Preste atenção nos detalhes, nas palavras, nos lapsos dos discursos. Mas não entre em paranóia. A grande diferença é saber que a luzinha está dentro de você, não “fora”, afinal, ninguém precisa ver um show de quebra de garrafa e de cadeiras voando pela janela, porque você encasquetou com algum motivo infundado. Há mulheres que são traídas por anos e se sentem admiradas como “nunca perceberam”. Difícil que ela nunca, nunquinha, nem um diazinho sentiu sua luz vermelha assinalar para algum movimento fora do normal. O problema é que se cegar é um dos passos mais comuns para não se sentir ferida.

Só não esqueça, que os grandes males da sua vida nunca virão a acontecer, serão apenas idéias e hipóteses na sua cabeça que você irá remoer por um tempo e nunca dará em nada.

Cap 8: O amor não é cego

Dizem por aí que o amor é cego, mas se ele fosse cego, não enxergaríamos no outro aquilo que as demais pessoas não percebem. O amor tem essa capacidade de nos atentar para os mínimos detalhes e ver até o que não gostaríamos de ver, como a unha encravada, o defeito de ser bagunceiro, o cabelo grande, o arroto. O amor vê tudo e a paixão enxerga através de um vidro fosco, sempre imaginando e criando fantasias sobre a silhueta que se move difusa atrás das suas inspirações.

Por isso que quem se apaixona não tem paciência, precisa viver tudo com pressa, aos atropelos. Na mesma rapidez que devora, se perde e finda. É uma palha queimando e se consumindo rapidamente. O amor é a vela serena, que não perde seu fogo por doar-se para outra se acender.
O amor é capaz da espera diante da estrada vazia que não traz de volta quem se ama. Ele consegue pagar um preço alto pela felicidade do outro. Descobrir doce de carambola de madrugada em alguma lojinha de conveniência para matar o desejo de uma mulher que não quer ter filho com cara de carambola, por exemplo.

A paixão vive de si mesma, preocupa-se no que irá gerar o auto-prazer: “Será que ele vai me olhar? Será que ele vai me querer? Será que ele vai me desejar?”_ Sempre o foco é no eu.

O amor consegue doar-se mais, mesmo não sendo de todo altruísta, pois ele não vive só, precisa do objeto do seu amor consigo. Até se esse “consigo” não for todo dia, todo mês. Ao menos a pessoa deve saber que aonde quer que esteja seu amado, o amor dele é seu.

É uma dor muito grande quando alguém descobre que aquele amor eterno compactuado foi rompido e o ser amado está com outro, vivendo e dividindo os prazer com um terceiro. Poderia passar séculos amando a distância, mas é pedir demais sentir o corte profundo que é ver que não se é mais o primeiro da lista. Essa é a maior pena para quem não pode, ou não quis, colocar seu amor em prática. Nunca considere o jogo ganho, como se a qualquer momento pudesse estalar os dedos e conseguir quem se gosta. O que você deixa de fazer, vem outro e faz melhor.

Se parecer que é tarde demais, não se abata, vá lá e lute. Se ouvir um não, você não perde nada, continua no ponto onde esteve. O não saber como teria sido se tivesse arriscado é bem mais cruel que levar nos ombros a certeza de que não depende apenas de você para que o amor exista. Colocar pontos finais na vida nos permite recomeçar sem pendências no passado.

Cap 9: A arte da corporificação do amor

Isso não é arte. Foi o que pensei quando estava diante dos relevos espaciais de Hélio Oiticica, numa das minhas aulas da faculdade de jornalismo. Para mim, museu era uma casa antiga cheia de quadro de gente que sabia fazer retrato com tinta. Muito menos considerei arte aquela máscara de Lígia Clark com umas bolinhas de isopor para passar em cima das pálpebras.

A vida é uma oportunidade de revermos nossos conceitos.

Quando HO pintava, ele sentia que a pintura não poderia ficar aprisionada dentro do quadro e, então, resolveu tirar a moldura. Ainda não satisfeito, ele pegou seus desenhos geométricos e construiu sólidos que ficavam suspensos no ar, como móbiles. A arte precisava ser e não representar, no espaço a pintura de HO era.
O amor também não fica aprisionado dentro da moldura do coração, ele transcende as paredes da alma e se espacializa no ser amado.

E as máscaras de Lígia agora ganham todo sentido para mim. Quando aquelas bolinhas de isopor roçavam os olhos, elas conferiam o tato à um órgão que era tido apenas para a visão.

Exatamente o que ocorre com a arte da corporificação do amor.
Quando duas pessoas que se amam estão juntas, os cincos sentidos trocam de lugar, e talvez essa seja uma das explicações para aquela sensação da inexistência do mundo, uma maravilhosa energia girando em torno, uma alegria que chega a fazer cócegas e um tempo que se estende de vagar.

Enquanto ela fala, o outro desce com o olho pelas curvas do seu rosto, escorrega pelo pescoço, caminha pelos ombros, descansa nas mãos que repousam sobre o tampo da mesa, trilha os meandros dos cachos do cabelo que balançam com o vento. O olho toca. Visão é ver o que todo mundo vê. O olho de quem ama sente o que vê, por isso toca.

Ela, então, sente, no menor movimento de proximidade dele, seu cheiro, e isso a faz perder totalmente a seqüência lógica das palavras. Uma imagem mental é produzida quando o odor do outro a penetra, formam-se aqueles quadros abstratos, pixados, com a tinta em relevo, onde o preto, o vermelho e o amarelo se misturam. Um sentido inconsciente de prazer inexplicável. Porque não é o olfato, cheiro tudo tem, mas o do amado não sai dos pulmões sem antes perfumar a alma.

E uma vez perdidas as palavras, usa-se a boca para outras conversas. Conversas sem assunto, respostas que têm gosto. Enquanto os lábios deslizam e dançam em torno do outro, um diálogo de confissões se estende. Beijo com gosto de café, bala de hortelã, sorvete, chocolate, vinho. O melhor é o beijo de quem se ama, porque não precisa de nada para ser inesquecível.

Cap 10: Um amor atlético

Guardada a lingerie, acabado o vinho, secadas as flores, o amor torna-se aquele obeso sem ânimo, na poltrona da vida. Ele já foi atlético, correu atrás da amada, gritando seu nome na multidão, até puxá-la para um beijo descabido e intenso. Tinha força para pegar no colo, criatividade para cartões, delicadeza para rosas vermelhas, inteligência para piadas sem hora, curiosidade para cantos do corpo nunca antes queimados pelo fogo da paixão e um vinho sempre à boca. Agora ali, sem causa e sem ânimo, na poltrona.

A academia do amor poderia ter um letreiro luminoso: MIL E UMA NOITES, fazendo menção a inesquecível história da jovem Xerazade, que pede ao pai para casar-se com o sultão. Enlouquecido, o pai não acredita que ela possa se salvar da maldade daquele homem, que ao amanhecer de cada noite de amor mandava matar sua noiva, para que assim esta nunca o traísse. Mas Xerazade sabia fazer um outro tipo de amor. Após lhe penetrar com seu vigor físico, o sultão em todo seu poder desfalecia cansado sobre seus braços. Era aí que Xerazade lhe conduzia para uma nova maratona de amor, só que dessa vez, era ela que o penetrava pelos ouvidos com sua voz. Hábil contadora de estórias, a jovem Xerazade conduziu aquele homem por mil e uma noites...

O amor-atlético é aquele que, depois da rosa vermelha, vem a amarela, a branca, a tulipa a margarida... Que, usada a lingerie vermelha, ainda tem a preta, a branca, a com babado,a com zíper... Que, bebido o vinho tinto, experimenta o branco, o seco, o doce...Que, dado o cartão, vem a serenata à janela... Que, beijado com bala de hortelã, troca-se para a de morango, maracujá, chocolate, sorvete... Que, acabada a poesia de Fernando Pessoa, declara Vinícius de Moraes... Pois o amor atlético se exercita todos os dias, já que seu verbo é FAZER, indicando movimento, renovação e não ESTAR, esse é estático, obeso.

O FICAR nada mais é que um amor-obeso que começa o exercício na segunda e na quarta desiste. O NAMORAR é o amador que todos os dias se esforça para se superar e tem como troféu o sorriso do outro, o suspiro, o rubor, o prazer satisfeito. O CASAR é o profissional que sabe os seus limites, o seu ponto forte e conhece todas as artimanhas pra ganhar, nesse jogo onde toda vitória consiste em 1x1.

A obesidade começa quando o profissional acha que sabe tudo, pois já passou por todas as graduações. Ai deixa a lingerie no guarda-roupa, o vinho no supermercado e as rosas na floricultura. Fica cansado, senta no sofá e não vê mais graça naquele programinha repetitivo que passa na tela da vida.

Cap 11: O amor revoluciona vidas

_Não vejo a hora do meu filho arrumar uma namorada para eu ficar tranqüilo.

Quando ouvi aquilo de um pai, estranhei. Não teve como em meio a risos perguntar o por quê daquilo.

_Quando o homem está com a namorada geralmente fica calmo e não faz besteiras. Quando está com os amigos acaba bebendo e entrando em furadas. _ explicou.

Achei a idéia interessante. Não é a toa que o amor é o maior modificador de vidas. Ele restaura os escombros de relações passadas, traz alegria para nossos dias. Quem nunca amou não viveu a melhor parte da vida. E quem nunca lutou por um amor, a viveu mediocremente. Amar sozinho é transformar o amor em outra coisa, numa mistura de dor, rancor, tristeza. Quando lutamos e vemos que não é possível partilhar o amor com uma pessoa, porque esta não quer, nós podemos colocar um ponto final e partir do ponto zero.

É difícil não haver uma pessoa para cada tipo de personalidade, de gosto, de aparência, de credos para outro par. Não se pode é achar que ela vai tocar sua campanhia e dizer “oi meu nome é príncipe encantado, posso colocar esse sapato de cristal no seu pé, por favor”? É preciso estar aberta e disposta a deixar o amor operar em você os milagres de que ele é capaz.

Algumas pessoas nem percebem a sua atuação e quando vêem já estão totalmente dominadas por aquele sentimento forte e pacífico. Essa é uma grande diferença entre o amor e a paixão. O amor traz paz e compreensão. A paixão agonia, angustia, é avassaladora, entra dentro de você correndo e esbarrando em tudo. O amor entra passeando, calmo, tranqüilo, com cuidado.

Os homens mais durões são dobrados pelo amor e se vêem fazendo declarações e provas de carinho. Sem dúvida o amor mútuo é capaz de revolucionar a vida de alguém que se considerava “morto” e perdido. Não fique nunca nutrindo sentimentos solitários por alguém que não te quer, que não te mereça, que não te procura, que te trocou por outra. Se ele foi embora e não quis o melhor que você tinha a oferecer, não se entristeça, você ainda tem a oferecer a outro que queira. Acorde, pegue seu orgulho, levante a cabeça e esteja disposta a lutar por alguém que mereça sim seu valioso amor. Quem te amar de verdade vai correr atrás de você e não aceitar nenhum não seu.

Cap 12: Entre o que desejo e preciso

Conversava com um homem de seus trinta e cinco anos, obeso, alto, de pescoço enfiado entre os ombros, cabeça oval de poucos cabelos no topo e olhos miúdos. Ele me contava de maneira efusiva e cheia de gestos sobre sua felicidade de ser pai há 2 meses:

_“Meu filhinho é o maior milagre na minha vida. Deus mandou ele para mim. Ele fica na cama deitado e eu roço o nariz nas bochechas dele e ele vira para mim e levanta as mãozinhas, eu tenho vontade de chorar de alegria. Minha esposa põe ele no colo e fica ninando ele com carinho. É o quadro mais bonito do mundo”.

Toda a alegria deste homem se resumia no milagre do nascimento daquele bebê:

_ “Minha esposa já fez duas operações no útero e agora vai fazer a terceira. Ela nunca pode ter filho, tentamos dez anos e não sei como Deus fez esse milagre dela conseguir gerar o meu filho. Eu sou o homem mais feliz do mundo. Essa criança modificou a minha vida, tenho tanta alegria de viver. Minha família é meu tudo”.

Ouvindo esse depoimento no dia anterior a esse que estou escrevendo me levo a refletir que esse homem era realmente tudo que sua mulher precisava para ser feliz. Alguém que a ama com quase idolatria, que se entrega em carinhos e amores ao seu filho e diz que “sua família é seu tudo”.

É uma pena que muitas mulheres procurem não o que precisam, mas o que desejam nos homens. A diferença entre precisar e desejar é que precisamos das coisas que realmente nos farão falta e desejamos aquelas que alimentaram um capricho e não nos fazem medir as conseqüências de nossas escolhas.

O parâmetro beleza referente ao belo físico vem da Grécia antiga, onde a perfeição e simetria física dos músculos, membros, olhos e rosto eram a materialização da beleza. Repare nas esculturas gregas, são sempre de homens com os músculos em tensão máxima, torneados, contraídos. A palavra “bom” tinha muito que ver com a palavra “belo”. O mau era caracterizado pelo grotesco, disforme.

O amor romântico é reconhecido socialmente muitos séculos depois e ainda traz o resquício das exigências de padrões de beleza que mudaram de tempos em tempos até chegarmos nas mulheres magras de hoje e nos homens halterofilistas.

Os casais mais felizes não são necessariamente os de dois pares de belos. Esses geralmente irão se invejar por toda a vida e se separarem no meio do caminho por suas crises de ego. Abram as revistas, leiam “a vida amorosas de saltos” dos artistas do show business, de ano em ano pulam de um relacionamento para outro.

Aquele namorado da sua melhor amiga tido pela sociedade como “tosco e feio” pode levá-la a um casamento feliz por longos anos e o gatinho marombado da academia pode não enxergar em você todas as qualidades que você gostaria. A vida é um conjunto de combinações. Não há uma regra precisa entre beleza, felicidade e amor. Esse cálculo varia de pessoa para pessoa. Mas não é a toa que a média dos casos nos levam a repensar sobre essa busca frenética das pessoas por exibir a beleza dos seus parceiros como prêmios a serem expostos.

A atração física não tem que ver com a uniformidade e simetria. Mas com uma questão metafísica de “pele”, de “toque”, de olhar e..., para ser muito precisa, “ter tesão”.

Nem sempre o que desejamos nos fará necessariamente felizes no amor.

Cap 13: Desconfiar não é crime

Cair no conto do vigário e fazer parte das estatísticas das idiotas passadas para trás não está livre de ninguém.

Há pessoas sem escrúpulos, que não aprenderam em casa desde pequenos a respeitarem os sentimentos alheios, nem a pensarem que seus atos podem magoar e destruir a vida de alguém. O problema é quando esses indivíduos escolhem você como alvo. Não pensem que virão vestidos de lobo peludo, de boca grande e garras afiadas, mas de cordeirinho felpudo e inocente. Aí que mora o perigo, quando já estamos apaixonadas, não é difícil pensar que desconfiar é uma prova de falta de amor. Errado. Se os indícios derem sinal de que algo não vai bem, não feche os olhos.

Que indícios? Vamos a eles. Você conheceu um carinha. Na net, na boate, na festa da faculdade e pronto, só sabe dele aquilo que ele te diz. Que garantias têm que ele fala a verdade? Palavras são palavras sem atos que as tornem sinceras. Não se deixe levar pelo tom de bom moço dele se:

1)Ele não te apresenta aos amigos dele, nem os chama para sair com vocês;
2)Ele não te leva na casa dele para você conhecer sua família;
3)Ele não te dá o número do celular, nem da casa ou do trabalho dele;
4)Ele diz que não tem orkut e odeia Internet (averigúe, não custa).
5)Ele algumas vezes dá uma desculpa para não te encontrar no fim de semana.
6)Ele usa aquela maldita frase “não se apegue demais a mim, pois eu não tenho muito a te oferecer”.

Você, então, me diz: “Que idiota acreditaria em tudo isso?”. Por incrível que pareça, a lábia e o dom artístico dos canalhas são o pior ópio para amortecer a razão.

Seja mais esperta e faça a ficha completa dele, antes de se entregar, porque se encontrar alguma coisa um tempo depois, a dor virá em quádruplo.

Já vi inúmeros casos de homens que têm duas mulheres, duas namoradas, duas ficantes e pior, que enganam as duas. Por isso, não deixe de desconfiar, quando no começo de uma relação você for colocada totalmente fora da vida social dele. É o sinal mais forte de que alguma informação que você deveria saber está sendo negligenciada.


Se o homem te ama e te quer, ele vai sim te apresentar para todas as pessoas, ter o prazer de te levar na casa dele para conhecer a família e seu lar. Ele não terá vergonha, nem o que temer por te chamar de namorada na frente dos amigos. Quem não deve, não omite.

E mais, se ele não faz nada disso e conseqüentemente te deixa triste e te leva a chorar sozinha, caia fora. O homem deve entrar na sua vida para te dar prazer e felicidade, não deu, só te faz chorar? Tchauzinho e parte para outra. Porque se for para ficar se descabelando por alguém só por pena, querida, você está perdendo seu tempo. Quando for a vez dele, talvez te deixe na rua da amargura sem dó, nem piedade. Se coloque em primeiro lugar e não deixe que por amor pisem no seu orgulho. Acha que vai sofrer mais sem ele, que com ele? Então, só tenho a te dizer que está perdendo a grande oportunidade de conhecer alguém muito legal por aí, que te faça muito feliz.

Enquanto estiver com um encosto do teu lado, sentado nele feito estepe, linda, linda, você só estará com os caminhos fechados. Liberte-se do que te faz sofrer e só assim novas chances serão atraídas para sua vida feito ímã.

Cap 14: Amar a si mesmo

Estava eu e meus pesos, pingo a pingo de suor, na academia, bem no meio de uma série para o glúteo, quando meus ouvidos se desligaram da música e foram apreciar o papinho das mulheres bem ao lado no colchonete. Todas tinham idade para serem minha mãe, mas apesar de quarentonas eram muito bem definidas, sexys e com bom humor. Um tiquinho metidas por isso também. Uma delas explicava às demais como era sua nova vida: “No almoço eu faço minha salada, como minha gelatina. Depois de tarde amasso uma banana e a noite tomo meu chá e...” E foi assim descrevendo alguns cuidados que passou a ter consigo mesma. No fim arrematou: “Vocês pensam que eu vou deixar de fazer as coisas para mim? Tem mulher que é assim. Eu não, antes eu não fazia para ele? Por que agora eu não posso fazer para mim?”

Como eu pegara a conversa no meio, supus que o tal “Ele” era algum ex-marido. A mulher não se dava conta do que revelava por trás de seu discurso. Provavelmente agora é muito mais feliz, porque no seu antigo casamento ela “Só fazia as coisas para ele”. Não é raro ver mulheres que se entregam totalmente à promoção do bem estar do seu parceiro e dos filhos a tal ponto de se deixarem em terceiro, quarto ou décimo plano. Uma hora isso vira um vulcão que entra em erupção.

Amar-se é fundamental, mas eu digo amar-se na práxis, de verdade e não na utopia. Passar batom, pintar unha, cuidar do cabelo, viajar, estudar, fazer cursos, trabalhar, enfim promover-se, crescer como pessoa, valorizar-se com alguma coisa que significa para você. Isso não é só para as mulheres. Há homens que ao entrarem no casamento sentam no sofá com uma lata de cerveja e não levantam nunca mais, atrofiam literalmente em todos os quesitos. Esse “jogo garantido” pode virar em uma final de derrota.

A pílula acaba estimulando algumas mulheres a ficarem ansiosas e comerem mais. É raro, mas acontece. Só que na maioria dos casos o remédio é visto como o vilão que transformou aquelas mocinhas lindas das antigas fotos em mulheres barrigudas. O que poucas percebem é que o tempo e o comodismo é que as fizeram-nas perderem a definição. Não foi a pílula pura e simplesmente. O primeiro ingrediente para deixar a beleza de lado é amar mais o próximo que a si mesma. Não digo que alguém tem que ser magra para ser bonita. Apenas quero mostrar que algumas mulheres buscam a causa de suas mudanças em agentes externos e fixos erroneamente.

Cap15: Opostos se atraem ou se distraem

Os indivíduos geneticamente muito diferentes sempre tiveram vantagens no teatro do acasalamento. É que a chance de um gen defeituoso do pai se combinar com um gen defeituoso da mãe diminui muito. Por causa disso, a seleção natural privilegiou a diversidade. Entre os animais isso é mais claro de se provar. Já nos humanos, foi feita uma pesquisa em 1995 com 49 moças e 44 rapazes estudantes de uma universidade em Berna que não se conheciam.

Os rapazes foram obrigados a dormir com a mesma camiseta no domingo e na segunda-feira e depois a colocavam em um saco. Cada mulher ganhou seis sacos, dos quais três deles continham camisetas de portadores de gens próximos aos seus e três mais diferentes. Elas, então, deveriam dar uma nota de zero a dez para os critérios atração/repulsão sexual e sensação agradável/desagradável ao sentir o odor. O resultado era o esperado, elas deram notas maiores para as camisetas dos homens que tinham gens mais díspares que os seus.

Como podem ver, a atração e repulsão não é uma questão cultural, mas está no nosso próprio extinto animal que nos faz gostar de alguns parceiros em detrimento de outros. A televisão e o cinema contribuíram para a propagação do padrão de corpos ao estilo grego, bem torneados, de pele e olhos claros. Porém, o que vemos na rua são homens baixos, altos, barrigudos, magrelos, carecas, cabeludos, bigodudos, atletas. A diversidade é a nossa realidade.

O que faz uma mulher feliz não é um homem capa de revista. Este no máximo pode ajudar a levantar o ego com uma cantada, elogio, mas se não tiver outros atributos, pode perder feio para um “normal” que tenha um bom papo e uma ótima pegada. E isso não é sensacionalismo, nem falta de pudor de se dizer, as mulheres de hoje sabem exigir e buscam o prazer sim, por que não? Agora quem disse que as titias ficaram para trás? Muitos homens descobriram que se sentem mais seguros e felizes com uma mulher madura e independente, que terem que conviver com namoradas inseguras e com pouca vivência de vida.

A diferença de idade, não me refiro aquela que consta na carteira de identidade, mas a idade mental, pode trazer benefícios ou dor de cabeça, se a sintonia não for boa. Por exemplo, se a realidade de vida de um for totalmente diferente e não houver campos de interseção, inexistirá um diálogo a se manter. Será sempre um monólogo em que um contará tudo que o outro já sabe e este por sua vez falará tudo o que o outro ainda vai viver. Isso pode acarretar em uma desmotivação, uma falta de desafios a se cumprirem juntos. O que não quer dizer que os casais que tem mesma idade estão predestinados a felicidade. Apenas o fator idade pode, variando de casal para casal, ajudar ou atrapalhar.

Inevitavelmente os parceiros levarão para seus novos relacionamentos toda a bagagem de educação que recebeu em casa no momento de projetar sobre o outro o símbolo de mulher ou homem que desejam.

Cap 16: Falsas representações

Quando o bebê nasce ele é o mundo. Não existe o dentro e o fora. Sujeito-objeto são uma única coisa. A mãe, o seio e ele são um contínuo, por exemplo. Com a entrada da linguagem, ele passa a narrar quem ele é. Tarefa antes delegada aos seus mais próximos: “Olha que menino forte”, “Esse é muito esperto”...

A visão de mundo infantil volta à tona nos adultos da sociedade de consumo. No acesso ao shopping, duas mulheres batiam boca por causa do trânsito. Uma de Gol queria sair, outra de Mercedes passava pela rua e impediu a saída da primeira. No dado ápice da discussão, uma delas dispara:

_Tinha que ser uma mulher com um Golzinho desses mesmo... _ menosprezou a dona do BMW a outra mulher que tinha um carro mais barato que o seu.

Vejam como essa cena do cotidiano pode resumir o modo pelo qual as pessoas investem sentimentos nos objetos e fazem destes extensões de si mesmas. Esses mecanismos são muito recorrentes nas propagandas que recodificam os produtos. Estes passam a serem vendidos com um acessório de “felicidade”, “força”, “poder”, quando na realidade tais sentimentos não são da ordem dos objetos.

Há pessoas que se interessam por outras como um troféu que poderão exibir. Esse tipo de relacionamento movido pelo interesse dura pouco tempo. Vejam a fugacidade dos casamentos de alguns artistas. Eles buscam como a criança uma “continuidade do mundo”. Se estiverem com uma outra pessoa de sucesso, tem mais chance de permanecerem no foco da mídia e continuarem faturando. Não duram poucos meses e lá estão separados e com seus novos pares, sempre em frágeis laços de união.

Mas isso não é apenas para os habitantes da “ilha de Caras”. O jogo das aparências está em todos os estratos sociais. Nunca o amor foi confundido por representações tão falsas dele.

Cap 17: Amor e distância

De brincar e ser criança, é de tudo que lembro desse amor. Aos pulos e guerras de travesseiro sobre a cama, aos risos sob beijos, infinito em um curto espaço de tempo. Já vivi alguns amores de diversos tamanhos, mas nenhum tão distante como esse. Poderia ser um trailler de filme, uma música, uma pintura e ainda sim seria restrito explicar o que é esperar.

Você está preparada para viver tantas coisas, mas ninguém te ensinou a viver sem o contato físico de quem se ama. Foi assim que não faz nem tanto tempo, e na verdade faz uma vida quase, depende do ponto de vista de quem vê e sente, que eu o vi partir para outro estado.

O carro sumindo, tornando-se pequeno, dobrando a esquina. Eu poderia em poucos flash assistir a um passeio virtual dos nossos melhores e maiores momentos. Só alguns dias juntos que significaram tanto. Posso nos ver subindo uma trilha, até o alto de uma montanha e senti-lo me pegar no colo diante da incrível paisagem do mar. Ouve? São os risos. A chuva nos molhando, enquanto andamos na rua de mãos dadas, sem muita pressa, sem a menor preocupação em molhar a roupa. Seus braços e ombros largos me protegendo em um abraço agasalhador. Mas de imagem em imagem eu chego até aquela despedida.

O carro partindo e levando alguém que nem tive tempo de me perguntar o que mesmo eu sentia? Não tinha nome para aquilo, eu tinha só uma dor no peito de me ver arrancada da melhor parte de mim, parte essa que nunca esteve comigo e que só agora percebia que estava a todo esse tempo, a toda essa vida, com ele. E a levava de mim agora.

Você vai me esperar?, aquela pergunta demandaria de mim o maior dos esforços. E eu arrisquei e apostei tudo naquele amor. E, quando chega o dia em que ele volta, sinto que sempre vale a pena, correr para os seus braços e apertá-lo com muita força e rir.

Viver um amor à distância nos permite enxergar nos outros relacionamentos a fragilidade dos laços amorosos. Casais costumam brigar por coisas tão bestas, fúteis. Se soubessem o que é nunca ter consigo a pessoa que mais te importa, dariam menos tempo aos atritos.

Ninguém, porém, vê em meu rosto a tristeza, nem a dor, que escondo muito bem. Mas eu sei a alegria e a peso das escolhas que fazemos pelo amor que lutamos. Procuro refletir apenas os risos, a felicidade do amor que me move.

Muitos são os momentos sentada diante da janela, pensativa, com uma saudade que mal me cabe no peito. A saudade é esse momento que teima em acontecer e não consegue mais.

Para aqueles que nunca tiveram força, que sempre arrumaram desculpas, que vivem colocando a culpa no outro por não terem ficado juntos, não se esqueça que a única grande separação é a morte. Digo grande, porque levará um tempo para que os dois mais uma vez estejam no mesmo estado de espírito.

Não há infelicidade pela distância, quando se sabe que em algum lugar aquele a quem amo respira, caminha por aí, feliz, me levando consigo no coração. A vida ainda nos unirá outra vez, e dessa vez para sempre.

Enquanto isso, levo comigo tudo aquilo que ele me ensinou sobre simplicidade e desapego. Levo comigo suas lições de persistência. Como posso esquecer sua relutância em anotar o meu telefone, em descobrir meu e-mail, em insistir para que nos encontrássemos outra vez. Eu fui vencida por sua ousadia em não aceitar um não.

Feliz o homem que sabe querer, pois a ele não é necessário muito para ganhar a maior das recompensas, a mulher a quem se ama. Há homens que acreditam que precisam de um carro, de um bíceps, de um status para atrair uma mulher. Tudo que eles precisam é acreditar mais em si e não desistir. Os que desistiram facilmente nunca terão a dádiva de usufruir a felicidade ao lado daquela que amou.

Cap 18: Palavreando

Não diga a ele que o ama, nem vá se entregando de uma vez; também não dê o braço a torcer; muito menos deixe que percebam que você está morrendo de medo. Conselhos assim todos já ouvimos algum dia. As palavras têm um poder de materializar o nosso eu com tanta potência que para muitos o melhor caminho é evitá-las, outros preferem abusar.

Para mostrar que somos fortes e superiores não nos verbalizamos. Pois no nascer de cada palavra, na sua nudez, está a gênese da nossa frágil essência humana. Por que calar as tolas declarações de amor, sufocar os versos mais caretas, cantarolar a música mais cafona se, muitas vezes, é apenas disso que o ouvido do outro anseia por ouvir? Quando nos fazemos em letras e sons permitimos que quem está ao lado abra a porta da nossa alma e entre nela para ver nossa casa interior e sentar na sala do nosso ser. A visita pode ser prazerosa e amiga, ou incomoda, e por não saber se a melhor escolha é arriscar e convidar,fechamos-nos no silêncio e moramos solitários.

Há palavras necessárias e momentos de mudez indispensáveis. Gracinhas ao pé do ouvido e pequenos elogios encurtam distâncias entre as almas, porém, há horas em que falamos com as mãos que tocam e com os olhos que produzem os melhores textos retinianos. Nós seres humanos temos a necessidade de ouvir o que já sabemos, seja um “eu te amo”, “como você está linda hoje”, ou “pensei em você”. Aqueles que levam a vida pela razão e negligenciam palavras podem estar abrindo vales em lugar de construir pontes.

Porém, há horas em que o silêncio basta, como após o gozo do amor, em que não é preciso representar fisicamente a imaterialidade do sentimento suspenso no ar, porque os olhos que se sorriem cuidam do mesmo efeito.

As mesmas palavras que acariciam arranham. Como se cada uma fosse um ingrediente que, dependendo da receita, produz o mais saboroso ou o mais insípido prato. Com elas atiramos no outro e fazemos furos em seu ser. Mas antes falar, que se amargar. Se casais dissessem exatamente o que lhe ocorrem, sem eufemismos covardes e redundâncias medrosas, não se abririam lacunas no quarto, no carro, na mesa, na casa, na alma.

Nas crianças mora a espontaneidade de quem fala que o vestido da tia está horrível, que o cabelo da visita parece uma moita, que não queria ganhar a camisa, mas um carrinho, que acha o namorado da irmã um chato, que está com vontade de mijar bem na mesa do restaurante, que fala que está com fome na casa de um estranho. E tudo soa quase que indecente para nós “os morais adultos”, que já fomos um dia assim, mas que, graças às “boas” regras, fomos “domesticados” a dizer que o corte do vestido é ousado, que o penteado tem um estilo próprio, que estávamos precisando mesmo da camisa, que o namorado da irmã é uma pessoa difícil de se lidar, que temos que ir ali (no banheiro) e já voltamos, que comemos alguma coisa assim que saímos de casa, quando na verdade estamos com aqueles dois dedos de café desde de manhã.

Passamos boa parte de nossos dias sendo e dizendo o que o outro não se incomodaria de ouvir. Mas as palavras têm que incomodar também, para provocar mudança, crescimento, indignação, superação. O fim do que poderia ser o melhor dos relacionamentos começa quando, por um dito “amor”, se omitem as menores verdades que vão se juntando e formam a repulsa. Bastava ter dito que aquela carícia não agradava, que o futebol era uma hora sagrada, que escolher o vestido no armário requer um estudo apurado e avançado de combinatória. Se isso fosse levado como importante e palavreado, o outro aprenderia a respeitar a linha limite entre as diferenças que mora dentro de cada um.

Cap 19: Per-doar

Nós atravessamos a vida crendo, mesmo que no fundo negando para nós mesmos que cremos, no mito da perfeição. A cada vez que iniciamos uma amizade, um relacionamento, temos consciência de que o outro pode errar, mas esperamos que isso não vá acontecer conosco, porque não merecemos. E fatalmente acontece. Surge ai, em letras garrafais, o questionamento: “MAS POR QUE COMIGO, SOU TÃO BOM?”. Rasga-se o abismo no solo da união, uma fronteira entre o que falhou e o que sofreu o desapontamento. O primeiro foi vítima da sua própria natureza, o segundo esqueceu da sua e passou a cultivar a mágoa dentro de si com o adubo do ressentimento.

Mas na mesma natureza que advém o defeito também há qualidades. Porém, do que servem mil qualidades se basta uma falha para cavar o vale? Aberta a fenda, só resta a ponte. Mas construir a ponte implica entregar-se a uma nova possibilidade de ser vítima. Ponte esta batizada perdão. Per-doar é se doar ao outro por uma segunda vez, apesar de já conhecermos como é a mágoa do desapontamento.

Sabíamos que o outro era passível do erro, agora há a certeza, a partir daí o doar cede lugar ao acumular. A cada vez que re-sentimos mentalmente a cena, acrescentamos a ela uma nova dose de dor. A angústia só cresce e sufoca, engorda e pesa na cabeça. A paz vira tormento e nos pegamos colocando o pote de açúcar dentro da geladeira e a garrafa de água dentro do armário. Os atos parecem serem guiados por ordens confusas, alheias a nós. Tudo porque toda nossa energia psíquica converge naquele pensamento pulsante: ele me feriu.

As palavras são as tábuas que podem construir a ponte. Basta martelar o “desculpa” e o “eu reconheço que errei” com os pregos do “eu entendo”. Mas é preciso amarrar a ponte para que ela fique segura dos dois lados e esse não é um trabalho que pode ser feito por um só. Então, no abraço silencioso, em que novamente um se doa ao outro, os espíritos voltam a serem leves, o peso enorme enfraquece diante do milagre da reconciliação.

Já haviam se esquecido de como era reconfortante o calor daquele contato em que os inimigos novamente sorriem, agora ir-mãos, cada um pode pegar a mão do outro e segurá-la firma para continuar a caminhada de onde haviam parado.

Infelizmente o orgulho faz algumas pessoas crerem que a ponte não sustentará a travessia e cada um fica de um lado, olhando de vez em quando além abismo e concentrando sua atenção apenas na falha. Essas, certamente não deram primeiro uma chance a si mesmas e esqueceram de suas naturezas.

Cap 20: Todas as dores de amor passam

Todas as dores de amor passam.
A porta bate com força, a roupa cai pela janela, a flor voa no ar. Fotos rasgadas, telefones apagados, cartas em cinzas.Vontade tão psicopata de exorcizar tudo que possa ser matéria de lembrança, de retirar do mundo de fora o menor sinal de bons tempos.
Mais um dia.
Lençóis embolados, travesseiro desconfortável, noite cumprida, sol na parede do quarto, azul nos olhos. A comida não é a mesma, as letras no jornal nada dizem, as músicas machucam, o silêncio é torturador, a mente presa no ontem não consegue voltar.
Um outro dia.
Comer é preciso, o jornal está acumulando na porta, a melodia da vida deve voltar a tocar, chega a hora de silenciar as frases e fixar-se no presente.
Dia após outro.
Onde está mesmo aquele batom, no fundo da bolsa?
Dias e dias
Festa na casa da Claudinha?
Semanas.
Alô? Cinema hoje?Passa para me pegar às seis.
Meses.
Claro que adorei os chocolates, as flores também são lindas.
Semestres.
As fotos da viagem ficaram ótimas.
Anos.
Vamos construir um jardim nos fundos?
Era preciso o adubo ideal. Onde está mesmo o de húmus de minhoca? Aqui em baixo? Não, não é esse outro. Puxa!Desculpa, esbarrei sem querer. Quebrei seu vaso, eu lamento... Você?
Olho e olho. Um frio na barriga que lembra a primeira vez que ele ligou para pedir se podiam dar uma volta na praça. O cheiro do perfume seco, aquele mesmo que sentiu quando fechou os olhos na primeira noite de amor dos dois. A boca com o sorriso capaz de desconsertar seus quarenta. Os braços fortes que tornam o mundo seguro. As mãos que sabem tocar o ponto de êxtase. A aliança.
Tanto tempo.
Ele com aquele mesmo jeans batido, o cheiro do cigarro e de boemia. Ela com sua pasta de executiva e sua aliança também.
Um café? Aceito como desculpas pelo vaso.
Café?
Algum compromisso?
Não. Um café, pode ser, tenho uma reunião com um cliente às quatro, dá tempo.
Mesa dos fundos.
Lado a lado e o café.
Ele é médico, conheci na festa da Claudinha, lembra a Claudinha?
Claudinha, claro. Ela é professora primária, gosto dela, moramos juntos.
Preciso ir ao banheiro.
Ela respira e se vê no espelho. Queria ainda ser tão bonita quanto antes. Mas por que isso importava agora? Que frio na barriga era aquele? Recordação de uma sensação deixada para trás por tanto tempo.
A porta abre.
Ele a puxa para si e crava os olhos em seu rosto tenso. A boca entreabre para um suspiro quente. Juntos era impossível impedir a química da explosão.
Pia.
Bocas.
Mãos.
Roupas.
Você tem reunião às quatro. Olhou-lhe nas pupilas em busca de um motivo para não cometer mais loucuras que aquela.
E você gosta dela. Devolveu a razão de que ele precisava para deixar tudo como está. Sempre era por sua conta por os quatro pés no chão.
Cada um virou para lados opostos da rua.
Ela riu um riso trêmulo.
Ele balançou para os lados a cabeça já de fios brancos.
Todas as dores de amor passam.
O que não passa é o amor.

Cap 21: Terceiro olho

Ao abrir o portão do apartamento, ela ouviu o marido chamar. Ela tinha esquecido a carteira. Deu-lhe um beijo rápido em agradecimento e virou-se para abrir a porta do carro.

Enquanto passava o batom olhando-se no espelho, observou algo que lhe chamou a atenção. Uma mulher à janela, no segundo andar. Deveria ser a inquilina nova, não conhecia. Perguntou-se o que ela olhava tão fixamente. Na direção daquele olhar só existia um alvo: o marido. Mas não era nada, deixou para lá.

No dia seguinte, o mesmo olho fixo e o marido. E na outra semana nada mudou. Só pode chegar a uma conclusão: “ele está me traindo com ela. Sim, porque ele já até esqueceu de me dar o beijo de despedida e, à noite, chega e vai direto para as panelas. Reparou que o marido nem mais lhe falava do seu tempero, ou da calcinha nova. Era isso: não reparava mais nela, mas na outra!”

Tinha agora a absoluta certeza: a mulher da janela era a amante.
Isso não ficaria assim. Revidaria na mesma moeda!
Não demorou muito para o marido também desconfiar das traições da mulher. O primeiro bilhete achou ao pé da porta, supostamente jogado por alguém que queria zombar dele, foi o que lhe restou concluir. “Sua mulher me deixa louco!”, “Eu faço melhor que você”, “Ela é maravilhosa”.

O marido ficou com a vaidade arranhada, confiava cegamente nela e a considerava unicamente sua, com olhos só para ele. Mas já deveria ter percebido isso antes, porque ela já até se esquecera do beijo de despedida e, à noite, dava toda a atenção para as novelas, nem mais lhe perguntava sobre a empresa.
Tinha agora a absoluta certeza: o homem do bilhete era o amante.

Assim que ela chegara em casa, pensou em fazê-la engolir cada papel daquele. Mas ao olhá-la, lembrou-se dos bilhetes: “Eu faço melhor que você”, “Sua mulher é maravilhosa!”. Aquilo o levou a sentir-se vivo, numa mistura de sentimentos que ele só podia comparar à sensação dos primeiros meses de namoro dos dois, há tantos anos.

Olhou-lhe as pernas naquela saia comportada, o rosto jovem cansado atrás dos óculos de aros finos, as mãos de dedos longos que segurava a pasta. Não se conteve e a puxou para si. Nem deu tempo para que ela desse qualquer exclamação de surpresa. Cheirou-lhe o cabelo sedoso, desfiou-lhe a meia calça com sua pressa. O êxtase fez os poros transbordarem de suor e depois tudo voltou à calmaria e ao silêncio. Ali, juntos no sofá, ele beijou-lhe o beijo de cinema, aquele que em que se esquece o tempo, o filme e o mundo. Acariciou seu rosto, com a gentileza dos primeiros anos de descoberta. Cansado, fechou os olhos, mas ainda a manteve segura e presa nos seus braços.

Enquanto tinha aquele corpo pesado sobre o seu e lhe mexia nos cabelos, ela amou-o com uma pontada de tristeza. Tristeza de não ser a única.
Ele, que não dormia, sentiu-se mortalmente inseguro, não bastava para ela.

Quando o dia amanheceu e ela já tirava o carro da garagem, ouviu uma voz. Virou-se, era o marido com um papel na mão.
__ Deixou isso cair no chão ao lado da lixeira.__ ele disse com a voz mais fria que ela já ouvira.__ É um rascunho. Então, era você que mandava aqueles bilhetes!
Ela sentiu-se infantil por sua atitude desesperada, mas tinha justificativas para isso:
__ Você não reparava mais em mim! Só devia estar tendo olhos para a sua amante, ou pensa que eu não sei?
__ Como é que é?__ ele fez uma careta de surpresa.
__ Você e ela!__ apontou para a janela. __ Eu via o jeito fixo que ela olhava para você quando você tirava o seu carro da garagem e isso me matava sabia? __ Sentiu a fragilidade trazer as lágrimas à tona.
Ele riu de todo aquele mal entendido:
__ Eu nem sei do que está falando!
A mulher conhecia quando ele falava a verdade.
__ Então nunca...?
__ Nunca!

Agora fora sua vez de rir aliviada.
Ele abraçou-a e novamente sentiu como se tudo dentro dele voltasse ao lugar e aquele estado de insegurança deu espaço para um amor mais vivo. Beijou-lhe o pescoço e aspirou o perfume bom que sempre gostava nela e lhe disse as bobeirinhas já esquecidas, ao ouvido, só para ouvir aquela risadinha.

__ Com licença, vocês moram aqui?__ ouviram uma voz.
O casal virou-se. Era a mulher da janela.
__ É, moramos no 304. __ o homem respondeu.
__ Ah!Prazer, me chamo Rosa.
__ Prazer.__ ele estendeu a mão em cumprimento, mas Rosa estendeu a sua na direção da mulher, que sentiu uma pontada no coração.__ Eu tinha que comprar um saco de ração para o meu gato Félix. A minha irmã saiu para trabalhar... Então... Vocês poderiam me ajudar a atravessar a rua?_ pediu a mulher, cega.

Cap 22: Tempo pára passa tempo

6:00:00. Levanta da cama. Liga a escova elétrica. Liga a cafeteira. Liga a torradeira. Liga o espremedor de laranja. Liga a lava-louças. Liga o celular. Abre a agenda eletrônica. Liga o carro. Liga o rádio. Liga o ar condicionado. Sobe no elevador. Liga luz. Liga o ar condicionado. Liga computador. Liga apontador elétrico. Liga marmitex. Recebe o fax. Faz telefonema. Manda e-mail. Desce elevador. Liga o carro. Liga o ar condicionado. Liga o rádio. Liga a luz. Liga o microondas. Liga o cortador de legumes. Liga o triturador. Liga o liquidificador. Liga o forno elétrico. Liga a máquina de lavar. Liga a secadora. Liga o aspirador de pó. Liga o chuveiro elétrico. Liga a escova elétrica. Deita na cama. 11:00:00.

As pessoas especulam, e já até há muitos filmes de ficção científica, sobre a possibilidade de o mundo ter robôs além de seres humanos como forma de vida. Procuramos no futuro o que já é presente. Nós viramos máquinas que respondem com a maior precisão, são práticas, próprias para qualquer ambiente. É o mundo que nos domina, não nós dirigimos o mundo.

Vamos a tese:
1- O trânsito está caótico, dois caminhões tombaram na pista, seu carro virou um barco em meio ao rio que se transformou a avenida. Você:
a) liga o som, recosta-se no banco, respira fundo e pensa na vida;
b) imediatamente pega o jornal que está no banco ao lado e começa a lê-lo para não perder tempo;
c) liga para seu patrão, para o banco, para a empregada...
d) b e c ao mesmo tempo.


2- Final de semana. Você:
a) dorme o dia inteiro, toma café da manhã na hora do almoço, dorme a tarde e quando estiver super cansado de não fazer nada dorme mais um pouco.
b) passa o dia no computador pondo todos os relatórios e trabalhos em dia e come aquele pedaço de lasanha de microondas e bebe refrigerante diante da telinha.
c) lê o jornal enquanto ouve o rádio e finge que vê a televisão.
d) põe b, c na agenda em ordem de realização para que nada corra o risco de não ser feito.


3- O concurso muito importante que pode mudar sua vida está para chegar. Você:
a) estuda o que não sabe e o resto do tempo se diverte, afinal, auto-confiança é tudo.
b) vai para o banheiro com o livro, lê a revista no ônibus, lê o jornal na beira da piscina, escreve todas as fórmulas em várias folhas e espalha pelas paredes, escuta todos os telejornais.
c) passa o dia no curso, nos intervalos revê o que não foi entendido, no almoço come rápido para dar mais uma olhada na apostila. Em casa revê o revisto do revisado antes de dormir.
d) Concorda com o a, não esquece do b e por que não fazer o c?

Se você chegou aqui a tese está comprovada. Não. Não tem aquela tabelinha: “se a maioria das respostas foram ‘a’ some um ponto...” Porque a pessoa que se preocupa se o que faz é certo ou não é a filha do tempo moderno, filha do não poder errar, não poder desperdiçar.

O tempo ainda é dividido em horas, que é dividido em minutos, que por sua vez é dividido em segundos. Porém, a quantidade de coisas que se é capaz de fazer em segundos, que antes era feito em minutos e antes do antes era feito em horas só cresce. E nós invertemos nossa noção do que é demorar. Por exemplo, se alguém pedir para esperarmos um minutinho no telefone, que sempre é mais de um minutinho, nós aceitamos a tarefa sem muita irritação. Mas se ficarmos trinta segundo esperando uma página da Internet abrir, o pé começa a balançar, a gente bate com o lápis no tampo da mesa, se balança na cadeira e mexe no cabelo numa impaciência roedora.

Desde pequenos somos ensinados que tempo é dinheiro, que tempo é precioso, que tempo passa. E dentro da lógica frenética do tic tac tic tac vivemos o máximo de coisas no mínimo de tempo, quando deveria ser o mínimo de coisas no máximo de tempo para que a contemplação de uma paisagem levasse a profundos devaneios, que a alma conseguisse vaguear pelos meandros do pensamento e buscar nele pessoas e coisas que nos fazem sentido. Só que para isso hoje existe uma máquina fotográfica em qualquer celular. Que cachoeira, clic, que pôr-do-sol, clic, que jardim, clic, que catedral, clic, que praia, clic. Olhamos menos com o visor do coração do que com nossos olhos digitais e perdemos a essência do ser humano, que é ser sensível.

A tecnologia faz o mundo ficar tão pequeno e as pessoas tão distantes. Dentro de casa a mocinha ouve seu walkman no quarto vendo tv e lendo seu e-mail na internet. Na sala o pai assiste seu DVD e o filho joga seu Playstation, enquanto a mãe no escritório trabalha no seu laptop. Casas dentro de casas. Estranhos parentes desconhecidos. O amor se perde, vira apenas tema de filme na estante.

Nas gaiolas de concreto, com suas câmeras, raio-laseres, alarmes e portões eletrônicos, os animais somos nós.

Corremos para chegar em ponto no trabalho e esquecemos de correr para os braços de quem amamos todas as vezes que chegamos em casa, corremos para passarmos o fax à tempo e abandonamos as cartas à mão aos amigos distante do corpo e perto do coração, corremos para entregar aquele relatório complexo de números e teorias quânticas e não observamos os desenhos-relatório de nossos filhos pendurados na geladeira falando um pouco sobre o como é difícil crescer, corremos para o jantar de negócios com os novos compradores das ações da empresa e nossos amores ficam sem jantares a luz de vela, corremos para comprar a gravata de grife para o patrão e quem sabe ganhar promoção e a esposa em casa dorme todo dia sem a sua flor e sem seu beijo, coração.

Não é amanhã o melhor dia para capinar o jardim e perder a pelada para o filho de cinco anos, porque o amanhã nunca chega para aqueles que não conseguem ser donos da sua própria agenda. A bíblia não é o livro mais vendido no mundo, o mais vendido é a agenda, livro sem texto, mas que é seguido religiosamente pelos os fanáticos temporais que tem como maior pecado cobiçar o tempo das inutilidades imprescindíveis.

Cap 22: O esconderijo das borboletas

Sentada no ônibus, nestes sempre estafantes retornos a casa, ela olhava pela janela o passar acelerado das manchas de árvores, postes, prédios, luzes. Não muito concentrada no lá fora, nem em si mesma, apenas flutuando no pensamento vazio, deparou-se de repente com aquele jovem. Ajeitou-se na poltrona e o olhou novamente parado no ponto de ônibus. Para sua surpresa, ele entrou e da roleta começou a procurar em algum lugar dos bolsos o bendito vale transporte.

O coração descompassou quando uma porta escancarou-se dentro dela. Como podia ser tão parecido, inacreditavelmente semelhante...? Tentou desviar, mas o olho cravou-se no rapaz e, alheia a sua vontade, sua visão fixou-se na cena adormecida. Tanto tempo se passara, mas aquele seu antigo amor estava bem ali de novo na sua mente, um trabalho absurdo para esquecê-lo e simplesmente lá estava ele naquela imagem do jovem desconhecido.

Levou as mãos ao rosto, fechou os olhos, mas não a porta. Porta antiga agora escancarada, de onde saíram, não morcegos como nos filmes, mas borboletas que agora brincavam libertas em sua mente, fazendo a memória dançar no ar.
O rapaz sentou-se no banco da fileira ao lado, de frente para ela, e começou a conversar com seu amigo que estava logo atrás. E sua figura multiplicou-se por todos os vidros. Olhando para o vidro da sua janela ela via nitidamente aquela imagem física que lhe despertava a imagem poética.

A angústia lhe trouxe um incomodo de tão insuportável que acabou fazendo sinal para descer um ponto antes e somente se dera conta disso quando já na rua respirou um ar mais leve e viu-se uma quadra antes de casa.

Caminhante pelas ruas sem cadeiras no portão por causa do inverno que recolhe, ela permitiu-se lembrar dele depois de tanto anos achando que já o trancara dentro de si. Sorriu e balançou a cabeça para os lados mais aliviada até. Bons tempos de aventura, pena não ter sido possível... Mas ficara eterno.

Com o passar dos dias as borboletas retornariam uma a uma para o esconderijo, lembranças que voltam a descansar e a porta se fecha outra vez.

Nossos pavimentos do inconsciente são mal assombrados, à noite, por nossa casa-eu transitam pelos corredores os habitantes das portas que de dia acreditamos trancadas.

Em cada tristeza de uma perda empurramos as pessoas para quartos escuros e, quando dormimos, elas se vestem com roupas e perucas para não reconhecermos que nos desobedeceram e saíram de onde a tivemos colocado. E nos indagamos inquietos de manhã sobre nossos sonhos desbaratinados: fulano que estava num lugar, mas não era bem ele, era outro...

Quando não somos capazes de conviver com nossos insaciáveis desejos proibidos, nem mesmo queremos lembrar de que um dia o tivemos, eles começam a habitar a escuridão dos nossos sonhos e a repetir neles o que não teríamos coragem em lucidez. Ficam passeando pelos corredores da memória à espera sofrida de que não o tranquemos novamente quando chegar a hora de acordar.

Não queremos de modo algum lembrar daqueles que nos feriram e nos traíram, ou partiram nos deixando, mas enquanto não os perdoarmos, enquanto não assumimos a imagem deles, estaremos infinitamente acorrentados à rotina perversa de virar a chave da porta.

Aceitarmos também os que nos feriram é nos libertarmos de muitos de nossos pesadelos, porque para voltarmos a sermos felizes é preciso abrir portas.

E, de repente, acontece isso, um cabelo, um jeito não sei como de jogar a cabeça para trás, um fio que escorre pela testa e nos lembramos dos gritos noturnos dos que imploram para sair, ouvimos o lamento dos que esmurram alguma porta no pavilhão da memória.

Quando nos desligamos deles, ficam assim apenas lugares por onde o sol entra durante o dia, as borboletas visitam e se escondem, livres para sair. A cada retorno ao passado elas deslizam pelo ar da recordação e brincalhonas nos fazem rir de novo a cada reconhecimento de rostos, vozes alegres, cheiros doces, toques antigos. Depois elas retornam ao seu esconderijo e aquietam-se.

Cap 23: Eu, biblioteca

Quando uma pessoa morre é como se uma biblioteca inteira se incendiasse.

Desse ditado africano ficou o latejar de uma idéia. Morremos e tudo queima? Cinzas, fim e pronto? Ainda bem que essa agonia não é de hoje, nem só minha.
Lá nos tempos homéricos, na Grécia, pairava um grande medo de morte nos guerreiros. Isso deve ter um aparente quê de obviedade: quem luta trava uma batalha também contra a possibilidade de perder, e por causa disso morrer. Mas não era essa morte que os guerreiros temiam.

O medo era a morte do significar. A um guerreiro era mais importante ter a glória dos seus feitos heróicos cantada de geração em geração que a vida em esquecimento. Morte pelo vazio da palavra, essa era a dor mais insuportável.

Nós, guerreiros dos tempos dos bytes, temos como inconcebível a não assimilação do todo, uma necessidade quase compulsiva de onisciência. Não ouviu que a ponte caiu? Não soube que o fulano foi preso, ele mesmo, acredita? Não escutou que as tropas saíram do oriente médio? Não leu aquele livro?

Arquivamos, então, jornais, livros, revistas e apostilas em nosso pequenino cérebro e deixamos nossos neurônios, às vezes, desorientados em meio às suas sinapses frenéticas.

Uma queda, uma bala, uma batida, um ataque. Fim. Incêndio?
Não, ainda não joguei a flor sobre o caixão dessa idéia fixa.
Se é realmente assim, que sentido mora nos médicos que passam noites sobre um livro para entender melhor uma microscópica célula? Para que tantos cálculos a fim de fazer um avião mais leve? Por que tantas fórmulas para unir dois átomos? Que função tem internacionalizar o cérebro com várias línguas ?

Se sabemos da certa carbonização, qual o trabalho de nos escrevermos?
O maior medo daqueles que, no período da segunda guerra mundial, alimentaram grandes fogueiras com livros era o poder que estes tinham de mudar o mundo. Só esqueceram que não são os livros que modificam a ordem do cosmos, mas as pessoas que os lêem.
E se essas pessoas também morrem?

Não, isso nunca acontece. Por isso o poder das pessoas-livros.

As pessoas-livro-de-comédia fizeram com que aquela hora enfadonha no escritório tivesse o som de uma risada. As pessoas-livro-de-auto-ajuda nos lembraram que nos amarmos, apesar do olho do outro nos enfeiar, era a lição número um. As pessoas-livro-policial nos mostraram que o inimigo pode estar jantando conosco. As pessoas-livro-de-romance nos ensinaram que a dois a solidão é bem menor. As pessoas-livro-acadêmico nos explicaram que a complexidade da teoria nada é sem a prática. As pessoas-livro-de-arte nos fizeram ler a vida além palavras.

Não conheci o meu bisavó que veio da Itália para morar no Brasil. Mas ele está em mim, não só geneticamente falando. Ele acreditou que era possível vencer, mesmo um oceano de distância de sua terra. E meu avó aprendeu lições que ontem foram do meu pai e hoje são minhas. Lições de ver fazer, de ver perder e ainda sim querer lutar, de cair para aprender, para crescer.

Espelhos que somos nos refletimos.
Não sou a mesma, porque sou grata a um médico que um dia socorreu a minha mãe de madrugada quando esta passou mal do coração; porque um avião pode me fazer chegar à tempo para um último abraço; porque cada um que me ensinou a speaking in inglish o hablar español me fez enxergar o mundo com a lente de outras culturas.

Não sou a mesma, porque dois médicos disseram a minha mãe que meu irmão iria nascer cego e surdo e por isso ela precisava fazer um aborto imediatamente e ela não o fez, meu irmão nasceu perfeito e lindo; porque uma professora me disse que por eu me dar tão mal na prova dela eu não conseguiria entrar para a universidade que eu queria, passei; porque me dizem que escrever num país onde ninguém vai me dar um espaço me faz ter mais inspiração.

Nem eu a mesma, nem os que estão comigo.
Todos nos fazem melhores porque nos dizem que é possível e nos fazem ainda mais forte quando nos dizem que é impossível e ainda assim acreditamos.
Não é a longevidade do tempo que nos tornará inesquecível, mas o que desse tempo fizermos para tornarmos a vida do outro um pouco mais gloriosa. Todo sorrir para um mal humorado implica riscos, mas pode ser tudo de que ele precisa.

O tamanho da perda de nossa biblioteca depende do quanto de restrições impusermos para que nela deixemos os outros entrar.

Cap 24: O homem e os ciscos

Um de costas para o outro: o Prazer e Realidade.

Caminhando dentro da nossa casa-coração o Prazer é um moço que se joga no sofá e lê o segundo caderno. Sentado, ereto, à mesa, Realidade concentrasse na análise de sua revista especializada em economia.

Prazer, na frente da geladeira, se entope de pudim. Com a colher ainda na boca, pensa que um ovo cai bem, gordurento sobre o arroz de ontem, que tem? Realidade, à pia, lava seu alface e não esquece o suco sem açúcar.

Prazer está atrasado para seu pôr-do-sol e Realidade está em ponto para seu encontro com a namoradinha de vinte cinco e sobrenome.
Ainda dá para uma onda?
E que ópera.
Realidade apaga a luz do banheiro e, antes de deitar, olha Prazer debruçado sob uma garota de cabelo ruivo na cama ao lado.
Às vezes, dá vontade de ser Prazer. Fecha os olhos.
Prazer empurra a garota para o lado e se levanta para comer alguma coisa. Vida enfadonha. Antes de jogar-se na cama olha Realidade.
Às vezes, dá vontade de ser Realidade. Fecha os olhos.

Nós somos face Prazer, face Realidade. Diante da aridez do solo da vida olhamos para o céu da esperança e vemos chuva nas nuvens brancas, somos Prazer. Mas o calor que torra a pele e a fome que dói a barriga abaixa a cabeça para o chão rachado, já não chove faz é tempo, somos Realidade.

É preciso ser coerente, mas prato de feijão sem sonhos não enche homem. Homem, aliás, é esse bicho que quer sexo e carinho depois, que paga uma rodelinha de frango em restaurante francês a preço de jóia, que bebe a sede do próximo cálice de vinho e ainda surfa aos cinqüenta.

Insetos vêem flores, homens vêem sorrisos. Leões vêem reprodutoras, homens vêem mães. Pássaros vêem ninhos, homens vêem uma cama com vários pesinhos apontandos na coberta. O gato sobe no muro, os homens vêem além muros. Todo rouxinol canta igual, cada homem sente diferente.

Para o animal o mundo existe e para o homem mundo só é mundo quando há pessoas. O que mesmo é um lenço sem a dona daquele perfume? O que valem jardins sem endereço? Grama sem quem estenda a manta? Sorvete sem boca, rua sem mão, lágrima sem ombro, coração sem ouvido?

Nós vivemos porque desejamos, e dentro do nosso desejo mora a fantasia. É preciso acreditar que aos quarenta e cinco minutos, sem prorrogação, ainda é tempo para o gol de um contra-ataque para podermos sair do edredom quentinho, amanhã, às seis, com chuva.

Os mais robustos Realidade carregam seu Prazer amarrado no pulso, pendurado numa correntinha, pendendo no espelho do carro, perdido na bolsa. Os objetos não fazem milagres, eles apenas não nos deixam esquecer que milagres são possíveis, se quisermos.

Não cremos que ciscos mudem destinos e ainda sim encostamos polegares e fechamos os olhos para três pedidos, sem esquecer de pôr o cisco depois dentro da blusa.

Que chata mesmo seria a vida dos homens sem os ciscos.

Cap 24:Embrulhar-te

Escrever-te é extremamente fácil ou impossível.

Se quero tocar nesse teu braço pesado, ponho o b junto com o r, depois o a, sem esquecer o ç e por fim tasco redondinho aquele o. Sai fácil minha conversa ao pé da folha com teu corpo. Digo descarada que gosto da minha boca na tua e abaixo a cabeça, tímida, para confessar que fico revivendo a cena em pensamentos solitários.

Mas tem dia que é o reverso, extremamente impossível.

Se quero dizer-te que preciso do teu rosto dormindo frágil no meu travesseiro, que me custa não ter-te na varanda lendo meu jornal (não te importando nem um pouco em deixar todo bagunçado), que no fundo não ligo quando deixas a toalha molhada, embolada sobre a cama, porque vale o preço de ver-te aos pingos, lábios vermelhos, cheiro de desodorante que me desmonta, procurando a calça... Se quero dizer tudo isso, também temo que descubra o quanto me és necessário.

Só que há horas em que escrever é urgente, é desabafo que alivia. Então, sou louca mesma e falo todas aquelas frasezinhas adolescescas com rimas pobres, versinhos melados e quase cor pink, canto também umas músicas dos meus discos-intelectuais que ficas olhando num riso de canto e sempre largas sem interesse na estante. E te faço com toda a concentração dos chefes franceses aquela musse de chocolate, leite-condensado-cholocate-em-pó, só pelo prazer de contemplar-te pensando em algo que te faças esquecer a colher na boca. E me perguntas porque rio, como não rir? Também me aninho no teu peito com a desculpa de um repentino sono trazido pelo almoço e me pegas com jeito de sabedor de mim, numa habilidade que adoro e te fazes fortaleza para meu sonhar tranqüilo, enquanto assistes a minha TV. Nessas tardes sou eu com nove anos e tu nos teus maduros trinta e tal.

Já nem te tocas mais que tuas latas de cerveja estão ao lado do meu chá gelado? Não vês que pegou o hábito de chegar e largar a chave na mesa de vidro da sala num barulho que faz meu coração saltar? Nunca reparou que estás ocupando a cada dia uma gaveta a mais no guarda-roupa e minhas blusas estão sendo obrigadas a se imprensarem entre os shorts? Mas oh, não é uma reclamação, podes trazer mais. E já não é a primeira escova que compras nova e pões no copinho do banheiro, aliás, que eu ponho no copinho, porque displicente sais correndo e larga lá. Tua tolha branca está ao lado da rosa, ou achou que era apenas mais uma cor, uma toalha de reserva? Não, é tua.

Tu. Posso também chamar de você. Fica incomodado quando os molequinhos do play gritam “pega a bola aí, tio”. E só para ressaltar alguma irritação minha, até te chamo de senhor. Falta só poder dizer-te meu. Mas pegas aquele avião para algum trabalho que tenho sempre que compreender e fico aqui nessa saudade funda, mar vermelho, que de chorar apertada contra o travesseiro transbordo . Um patinho pequeno em oceano de lembranças tamanhas.

Meu príncipe desajustado que caminhava na rua quando viu aquela histérica ao celular, com o salto engatado numa fresta da calçada. Assim fácil, como tudo parece simples para ti, abaixastes e tirastes meu pé do sapato. Ajeitei os fios que saíram do coque para ver-te melhor quando levantastes sem pedidos de agradecimentos, apenas aquele rosto quadrado e um olho que me olhou dentro, fiquei nua de salto. Balbuciei um desconcertado muito obrigado, como pode eu não ter achado nenhuma frase coerente, logo eu versada na academia?

E, depois daquele cafezinho, eu ganhei muito mais jardins na minha vida, há mais de um sol, as estrelas levam bem mais tempo para morrerem, o arco-íris sai também em dias sem chuva. Não sei se a primeira coisa que deixou aqui foi aquele seu casaco xadrez cafona, naquela noite de chuva em que entrou, sapatos cheios de água, no meu apartamento impecável e pisou no rabo da minha gata! Incrível recordar cada detalhe...

Se soubesses que aquele sapato me faria caminhar nas nuvens, eu já o teria comprado quebrado ou com muito mais antecedência o prenderia eu mesma, de propósito, num bueiro para ter-te em minha vida antes, quando ainda era só um pedido secreto que eu fazia sempre ao deitar sozinha para dormir.

Falo, impulsiva, louca e desmedida com essa folha de papel que no final sempre morre, amassada, bolinha, atirada à lixeira. Letras que começam caprichadas, pontuação bem arrumada, para depois esquecer-me da gramática e entregar-me em garranchos conforme vou vendo que é tanto papel e pouca coragem. Arremesso no lixo ou embrulho-te e ponho numa gaveta, deito ao teu lado e te cubro.

Cap 25: À primeira vista

Carregando o caixão, lado a lado, os filhos.
Na frente, a mulher caminha.
Silenciosa. Seis anos de dedicação e morte, morte sua.
Quando a rosa caiu sobre a madeira do caixão, ela sentiu aquilo como um ponto. O ar entrou mais fresco em seus pulmões e trouxe o cheiro esquecido das flores.
Seus filhos conversavam em voz baixa a alguns metros dali:
__ Estou com medo.
__ Medo de quê?
__ Dela.
__ Ela ficou sentada ao lado da cama desde o derrame dele.
__ Já ouvi histórias de que quando um vai, o outro logo vai junto...
__ Não, não a mamãe. Ela é uma pessoa tão...
__Tão... Boa.
__ Isso! Boa.
__Sempre tão...
__ Tão... Tão dedicada.
__ O que eu ia dizer... Dedicada.
Conheciam muito sobre a mãe, nada sobre a mulher.
Quatro meses já se foram e a roupa preta voltou ao armário.
A mulher abriu a janela e regou as plantas.
__ Dia, Seu Zé...__ sorriu para o vizinho que lavava a calçada.
__ Dia.__ ele reparou-lhe que tinha a boca pintada.
__ Está fazendo um calor brabo esse ano.
__ Isso é...__ o homem ainda olhou bem, para ver se não era apenas um efeito do sol, não era, era mesmo um vestido florido que ela vestia.
__ Alô, Beto? Beto, a mamãe não está bem.
__ Não? O que aconteceu?
__ Acho que ela não conseguiu acreditar que o papai morreu.
__ Como é?
__ Não sei se é o caso de levarmos ela num analista.
__ Ela esclerosou?
__Estou um pouco chocado, acabei de voltar de lá.
__ Que é? A mamãe não sai da cama?
__ Pelo contrário! Ela parece que não deixou a ficha cair que o papai morreu! Ela está toda arrumada, como se fosse para festa agora.
__ Não é possível.
__ E está com aquela sandália alta de ir à missa.
__ Então, o caso é sério mesmo!
__ E não pode nem imaginar o que ela perguntou à minha filha Eliza.
__Ai, fala de vagar, o quê?
__ Se tem aula de hidroginástica na academia dela!
__ Jura? Isso só piora as coisas. Quando tudo vir à tona, ela pode até enfartar, será um golpe fulminante, nem quero pensar, Zeca!
__ O que faremos com ela?
__ Calma, a gente tem que ajudar a mamãe! Eu vou dar um pulo lá, à noite, com a Mariza.
Ao empurrar o portão, ele chocou-se com o que viu. Não pensara que as coisas poderiam chegar àquele ponto. Leu umas quatro vezes o que dizia a placa.
__ Sua mãe está dando aula?__ Mariza perguntou ao marido.
__É, ela já foi professora de literatura.
__ Nunca me disse isso. Pode ser muito bom para ela.
__ Bom?__ ele tentou não gritar de raiva.
__ Acho que você não está encarando o fato de que quem morreu foi seu pai e não a sua mãe.
__ Mas só faz um mês!__ irritou-se pela mulher não conseguir ver o que lhe parecia tão claro.
__ E o que prefere? Quer que sua mãe fique desfilando de preto por aí, feito manequim de funerária, e carregando uma vela de sétimo dia?
__ Com licença, é nessa casa da frente que mora a professora de português?
Os dois interromperam o início daquela discussão e olharam para a dona da pergunta.
Ele não soube o que responder, também estava querendo saber sobre essa nova mulher, agora sentia-se tão estranho quanto aquela mocinha.
Ao virar a chave, a porta abriu-se para uma sala com dois rapazes e três garotas sentados à grande mesa. E a mulher, em pé, falava sobre poesias e escritores.
__ Na prova caiu esse texto aqui.__ Uma das garotas estendeu o braço e mostrou o papel. __ Eu não entendi porque ele é classificado como barroco.
__ Hum, deixa eu ver... Quando vir que é Gregório de Matos, tem uma boa chance de ser barroco. E tem uma figura aqui de linguagem, a antítese. Lembra o que é isso? Coisas opostas, como “prazer e pena”. Tem uma luta de forças nesse trecho, dá para sentir. Eu vou ler para você: “ O prazer com a pena se embaraça; porém quando um com o outro mais porfia, o gosto corre a dor apenas passa”.
__O que é esse troço? Porfia?__ perguntou um rapaz.
__Tá escrito aqui, burrão. Significa competir.__ a garota sentada ao lado do rapaz lhe deu um leve safanão na cabeça e todos riram, enchendo a sala de uma sonoridade há muito tempo não ouvida.
Olharam para a porta e a mulher virou-se curiosa.
__ Oi, meu filho, está aí? __ estendeu-lhe a mão para a benção.
O homem olhou-a longamente. Dentro daquela senhora, que se acostumou a ver sentada com seus tricôs, ainda havia a jovem do retrato de casamento da parede da sala. Jovem inteligente e bonita que apenas dormia.
__ Vim só te ver, mamãe. __ Beijou-lhe a testa.
Na verdade, ele a viu pela primeira vez.